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A Regulação Do Comércio Internacional Agrícola: Histórico E Perspectivas

Discussion paper by Machado Oliveira, Ivan Tiago, 2011

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This paper analyzes the multilateral regulation of international trade in agriculture from the GATT/1947 to the Doha Round, under the auspices of the WTO. From a historical-analytical perspective, the international context in which the multilateral system has been built is presented taking into account how the agricultural agenda has been introduced in the system. Furthermore, the conflicts and negotiations among developing and developed countries are analyzed in order to observe the relationship between international agricultural trade and economic development. Finally, we discuss the current round of multilateral negotiations, the Doha Round, and its relevance for developing countries, focusing on agricultural negotiations, considered the center of the multilateral negotiating process. Este texto analisa a regulação multilateral do comércio internacional agrícola desde o GATT/1947 até a Rodada Doha, já sob os auspícios da OMC. Sob uma ótica históricoanalítica, faz-se uma apresentação do contexto internacional no qual o sistema multilateral foi construído e identificam-se as interações entre a formação do sistema e a inserção da temática agrícola nas regras multilaterais no pós-Segunda Guerra Mundial. Ademais, uma análise das lógicas de conflitos e negociação entre os países em desenvolvimento e os desenvolvidos é apresentada no sentido de se observar a relação entre o comércio internacional agrícola e o desenvolvimento econômico. Por fim, são realizadas análises sobre a atual rodada de negociações multilaterais, a Rodada Doha, e sua relevância na ótica dos países em desenvolvimento, tendo em vista as negociações agrícolas, colocadas no centro do processo negociador multilateral.

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A REGULAÇÃO DO COMÉRCIO
INTERNACIONAL AGRÍCOLA:
HISTÓRICO E PERSPECTIVAS




Ivan Tiago Machado Oliveira


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I SSN 1415 - 4765


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TEXTO PARA DISCUSSÃO


A REGULAÇÃO DO COMÉRCIO INTERNACIONAL AGRÍCOLA:
HISTÓRICO E PERSPECTIVAS


Ivan Tiago Machado Oliveira*


* Técnico de Planejamento e Pesquisa da Diretoria de Estudos e Relações Econômicas e Políticas Internacionais
(Dinte) do Ipea.


B r a s í l i a , a g o s t o d e 2 0 1 1


1 6 5 1




Governo Federal


Secretaria de Assuntos Estratégicos da
Presidência da República
Ministro Wellington Moreira Franco


Fundação pública vinculada à Secretaria
de Assuntos Estratégicos da Presidência da
República, o Ipea fornece suporte técnico
e institucional às ações governamentais –
possibilitando a formulação de inúmeras
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para a sociedade, pesquisas e estudos
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Texto para
Discussão


Publicação cujo objetivo é divulgar resultados de estudos


direta ou indiretamente desenvolvidos pelo Ipea, os quais,


por sua relevância, levam informações para profissionais


especializados e estabelecem um espaço para sugestões.


As opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e


inteira responsabilidade do(s) autor(es), não exprimindo,


necessariamente, o ponto de vista do Instituto de Pesquisa


Econômica Aplicada ou da Secretaria de Assuntos


Estratégicos da Presidência da República.


É permitida a reprodução deste texto e dos dados nele


contidos, desde que citada a fonte. Reproduções para fins


comerciais são proibidas.


ISSN 1415-4765


JEL: F50; F13; F10




SUMÁRIO


RESUMO


ABSTRACT


1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................................7


2 DA CARTA DE HAVANA AO ACORDO SOBRE AGRICULTURA:
O TEMA AGRÍCOLA NO SISTEMA MULTILATERAL DE COMÉRCIO .............................................9


3 O MANDATO NEGOCIADOR AGRÍCOLA DA RODADA DOHA:
DESAFIOS E EXPECTATIVAS ...................................................................................................18


4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................................................30


REFERÊNCIAS .......................................................................................................................31






SINOPSE


Este texto analisa a regulação multilateral do comércio internacional agrícola desde o
GATT/1947 até a Rodada Doha, já sob os auspícios da OMC. Sob uma ótica histórico-
analítica, faz-se uma apresentação do contexto internacional no qual o sistema multilateral
foi construído e identificam-se as interações entre a formação do sistema e a inserção
da temática agrícola nas regras multilaterais no pós-Segunda Guerra Mundial. Ademais,
uma análise das lógicas de conflitos e negociação entre os países em desenvolvimento
e os desenvolvidos é apresentada no sentido de se observar a relação entre o comércio
internacional agrícola e o desenvolvimento econômico. Por fim, são realizadas análises
sobre a atual rodada de negociações multilaterais, a Rodada Doha, e sua relevância na
ótica dos países em desenvolvimento, tendo em vista as negociações agrícolas, colocadas
no centro do processo negociador multilateral.


ABSTRACTi


This paper analyzes the multilateral regulation of international trade in agriculture
from the GATT/1947 to the Doha Round, under the auspices of the WTO. From a
historical-analytical perspective, the international context in which the multilateral
system has been built is presented taking into account how the agricultural agenda has
been introduced in the system. Furthermore, the conflicts and negotiations among
developing and developed countries are analyzed in order to observe the relationship
between international agricultural trade and economic development. Finally, we discuss
the current round of multilateral negotiations, the Doha Round, and its relevance for
developing countries, focusing on agricultural negotiations, considered the center of the
multilateral negotiating process.


i. As versões em língua inglesa das sinopses (abstracts) desta coleção não são objeto de revisão pelo Editorial do Ipea.
The versions in English of this series have not been edited by Ipea’s editorial department.






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A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


1 INTRODUÇÃO


Transformações importantes vêm acontecendo no mundo econômico e apresentando
consequências nada desprezíveis para o desenvolvimento econômico das nações.
Um velho e ruidoso debate sobre a ligação entre comércio internacional e desenvolvi-
mento parece tomar contornos mais consensuais, pelo menos num plano mais geral e
de longo prazo. A interdependência econômica crescente, decorrente do incremento
dos fluxos comerciais e de investimentos pelo mundo afora, trouxe consigo um olhar
menos negativo, principalmente nos países menos avançados, acerca das possibilida-
des de as trocas internacionais servirem como um elemento crucial de fomento ao
desenvolvimento econômico das nações.


O sistema multilateral de comércio (SMC) chegou ao século XXI com uma nova
roupagem, mais institucionalizada e efetiva na condução da regulação internacional
do comércio. A Organização Mundial do Comércio (OMC, em inglês, World Trade
Organization – WTO) tornou-se uma instituição central enquanto componente de
suporte à atual onda de globalização.1 Ademais, neste início de século, a luta pelo
desenvolvimento das regiões mais pobres do planeta também passou a ecoar de forma
mais relevante nas instituições internacionais como a OMC. Observa-se certa volta às
demandas dos países mais pobres colocadas em meados no século passado, quando das
negociações acerca da Carta de Havana, que tentava criar a Organização Internacional
do Comércio (OIC). Conceito-chave que norteou as ações do mundo econômico nos
mais diversos países durante boa parte da segunda metade do século XX, ficando mar-
ginalizado nas últimas décadas do mesmo século, em função das crises que assolaram o
mundo, o desenvolvimento volta à cena internacional no início de século XXI.


É nesse contexto que os membros da OMC lançam a Rodada Doha de negociações
comerciais multilaterais. A retórica desenvolvimentista em prol dos países menos avan-
çados foi a base de lançamento da rodada, apontando para o tema agrícola como pilar
fundamental das negociações. Não obstante a liberalização do comércio agrícola seja con-
siderada elemento central da rodada, novas negociações acerca de diversos outros temas
(como serviços, produtos não agrícolas, propriedade intelectual, investimentos, comércio
eletrônico etc.) foram também lançadas em Doha, buscando uma óbvia harmonização de
interesses entre os países em desenvolvimento e os países desenvolvidos.


1. Para uma análise sobre as ondas de globalização, ver Baldwin e Martin (1999).




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A importância dada aos interesses dos países em desenvolvimento na atual rodada
de negociações da OMC, pelo menos retoricamente, pode ser vislumbrada de forma
clara no seguinte excerto da Declaração Ministerial de Doha:


O comércio internacional pode desempenhar um papel importante na promoção do desenvolvi-
mento econômico e na redução da pobreza. Nós reconhecemos a necessidade de todos se beneficia-
rem do aumento das oportunidades e de ganhos de bem-estar gerados pelo sistema multilateral de
comércio. A maioria dos membros da OMC são países em desenvolvimento. Buscamos colocar suas
necessidades e seus interesses no centro do Programa de Trabalho adotado na presente Declaração.
Recordando o Preâmbulo do Acordo de Marraqueche, continuaremos a fazer esforços positivos
concebidos para assegurar que os países em desenvolvimento, e especialmente os menos desenvolvi-
dos entre eles, tenham garantida uma quota no crescimento do comércio mundial proporcional às
necessidades do seu desenvolvimento econômico. Neste contexto, um melhor acesso aos mercados,
regras equilibradas, e bem orientadas, assistência técnica sustentavelmente financiada e programas
de capacitação têm papéis importantes a desempenhar (WTO, 2001, tradução nossa).2


Desde a quarta Conferência Ministerial da OMC, realizada em Doha, em dezem-
bro de 2001, quando o mandato negociador sobre os variados temas foi acordado, as
negociações tomaram corpo de modo permanente em Genebra, tendo ocorrido eventos
posteriores que buscaram diminuir as divergências entre posicionamentos dos países no
que se refere aos temas negociados. Num primeiro momento, pode-se citar a quinta
Conferência Ministerial, ocorrida em Cancun, em setembro de 2003, malograda pela
falta de entendimento entre os países em desenvolvimento e seus pares desenvolvidos
sobre a liberalização agrícola e os temas de Cingapura.3 Vale ressaltar que, do ponto
de vista dos interesses brasileiros na rodada (focados no tema agrícola), a Conferência
em Cancun trouxe à tona a participação do G20 como interlocutor importante nas
negociações, além de ter sido palco de manifestações altermundialistas de movimentos
e redes transnacionais de ativismo político.4


2. “International trade can play a major role in the promotion of economic development and the alleviation of poverty. We
recognize the need for all our peoples to benefit from the increased opportunities and welfare gains that the multilateral
trading system generates. The majority of WTO members are developing countries. We seek to place their needs and inte-
rests at the heart of the Work Programme adopted in this Declaration. Recalling the Preamble to the Marrakesh Agreement,
we shall continue to make positive efforts designed to ensure that developing countries, and especially the least-developed
among them, secure a share in the growth of world trade commensurate with the needs of their economic development.
In this context, enhanced market access, balanced rules, and well targeted, sustainably financed technical assistance and
capacity-building programmes have important roles to play.”
3. Os temas de Cingapura incluem facilitação de comércio, comércio e investimento, compras governamentais e comércio
e competição.
4. O G20, grupo de países em desenvolvimento liderados pelo Brasil e pela Índia com atuação concentrada nas negociações
agrícolas, passou, desde então, a ter voz ativa e importância substancial para o prosseguimento da Rodada Doha.




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A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


As negociações comerciais multilaterais ficaram relativamente estagnadas até
meados de julho de 2004, quando se conseguiu chegar a um acordo para a retomada
efetiva das negociações (The July 2004 package). As negociações prosseguiram por
um ano e meio, até a sexta Conferência Ministerial da OMC, realizada em Hong
Kong em dezembro de 2005. Nesse encontro, algumas arestas foram aparadas em
relação aos temas mais controversos, e um progresso relativo foi obtido em áreas
específicas, como em relação aos subsídios à exportação agrícola, que seriam extintos
completamente até 2013.5 Entrementes, muito ainda resta de controverso e não acor-
dado acerca de temas muito importantes para a rodada, como aqueles relacionados
à agricultura (acesso a mercado e apoio interno), serviços e bens não agrícolas. Entre
avanços e recuos, as negociações no âmbito da OMC ainda não tiveram resultado
efetivo que fosse consubstanciado num acordo final para a Rodada Doha.


Feita essa breve introdução aos acontecimentos relacionados ao mandato
negociador da Rodada Doha, iniciaremos, a seguir, uma exploração mais parti-
cularizada acerca da regulação do comércio agrícola no sistema multilateral de
comércio. Primeiramente, apresentaremos uma análise histórico-evolutiva sobre as
negociações do tema agrícola no sistema multilateral, desde o General Agreement
on Tariffs and Trade (GATT, de 1947) até a Rodada Uruguai, quando foi criado
o Acordo sobre Agricultura (AsA). Posteriormente, as negociações agrícolas na
Rodada Doha serão analisadas detalhadamente observando-se os principais pontos
discutidos nos pilares da negociação – e isso numa perspectiva brasileira. Por se
tratar de um tema “vivo”, dinâmico, um work in progress, apresentar-se-ão alguns
dos principais resultados, ainda que preliminares, das negociações, além de algu-
mas perspectivas para o futuro.


2 DA CARTA DE HAVANA AO ACORDO SOBRE AGRICULTURA:
O TEMA AGRÍCOLA NO SISTEMA MULTILATERAL DE COMÉRCIO


Antes do fim da Segunda Guerra Mundial, quando da assinatura, em 1941, da Carta
do Atlântico, os Estados Unidos da América (EUA) e o Reino Unido já sinalizavam
para a construção de uma nova ordem econômica internacional, em que o ideal liberal


5. O sucesso relativo na Conferência Ministerial de Hong Kong, em 2005, com o acordo acerca da eliminação de subsídios
às exportações, atende claramente à lógica de reforma, já em curso, da Política Agrícola Comum da União Europeia (UE),
que estabelece 2013 como prazo para o fim deste tipo de subsídio em seu território.




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seria o elemento de suporte às relações entre as nações. Diante de tais ideias, a liberaliza-
ção comercial era vista como um mecanismo útil e necessário ao progresso econômico
internacional, incluindo aí o comércio de matérias-primas ou produtos agrícolas.


Mesmo alguns anos mais tarde, os EUA continuavam a defender uma liberaliza-
ção comercial ampla, com remoção de barreiras tanto tarifárias quanto quantitativas ao
comércio internacional como meio de gerar desenvolvimento e ajudar na conformação
de um novo sistema mundial. Contudo, mudanças no ambiente político internacional
e também pressões internas por proteção ocorridas nos anos seguintes levaram os EUA
a modificar sua atuação na organização do sistema comercial internacional que emergia,
adotando posicionamentos utilitaristas com teor protecionista. Observa-se, assim que:


Embora os Estados Unidos assumissem a posição, em suas negociações com a Grã-Bretanha que
antecederam a Conferência de Havana, de que os países deveriam eliminar todas as restrições
quantitativas, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos queria que o setor agrícola fosse
excluído. (THIRD WORLD NETWORK, 2001, p. 29, tradução nossa).6


Com a criação do GATT, em 1947, mecanismos de ordem jurídica internacional
para tratar do comércio de bens, de maneira geral, inclusive do comércio agrícola, foram
forjados. Entretanto, diversos dispositivos do GATT davam tratamento diferenciado
aos produtos agrícolas, denotando a complexidade e sensibilidade do tema agrícola
nas negociações comerciais internacionais. Com tais exceções às regras multilaterais,
abriu-se a possibilidade de os países instituírem medidas protecionistas relativamente
aos produtos agrícolas, seja por meio de barreiras tarifárias, não tarifárias (como quotas
e outras restrições quantitativas) ou de subsídios à produção doméstica e à exportação
desses produtos.


No que concerne às restrições quantitativas, o Artigo 11 do GATT 1947
deixava claro que era proibida a utilização de quotas e outras formas de restrição
sobre quantidades comercializadas, trazendo, contudo, algumas exceções ligadas à
produção agrícola, como: i) restrições à exportação relacionadas à prevenção ou ao
alívio de escassez de alimentos nas economias exportadoras; ii) restrições à importação
e exportação, quando necessárias à aplicação de regulamentos ou padrões para a
graduação, classificação e comercialização de commodities no cenário internacional;


6. “Although the United States took the position, in its negotiations with Britain preceding the Havana Conference, that coun-
tries should remove all quantitative restrictions, the U.S. Agriculture Department wanted agriculture sector to be excluded.”




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A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


e iii) restrições à importação tendo por fim a viabilização de restrição da produção
e/ou comercialização de determinado produto nacional similar ou a remoção de excesso
temporário da produção doméstica similar.


Não havia, inicialmente, no GATT de 1947, qualquer proibição relacionada ao uso
de medidas de apoio (subsídios) tanto no âmbito doméstico quanto naqueles ligados às
exportações. Todavia, em 1955, ficou acordada a proibição dos subsídios à exportação
pelas regras do GATT (Artigo 16, inciso 4), com a anuência de, mais uma vez, deixar
de lado a categoria produtos primários, na qual estavam inseridos os produtos agrícolas,
conformando um verdadeiro tratamento especial e diferenciado às avessas no comércio
internacional que marcaria o sistema multilateral de comércio durante mais de 40
anos. Assim sendo, como colocado por Jank e Thorstensen (2005, p. 38): “As exceções
relacionadas aos subsídios e às restrições quantitativas foram suficientes para deixar a
agricultura à margem da regulamentação do GATT 1947.”


Vale frisar que, no pós-Segunda Guerra, ainda vigorava nos EUA o Agriculture
Adjustment Act de 1938, de acordo com o qual ficava permitido o uso de tarifas,
restrições quantitativas e subsídios às exportações como mecanismos de proteção e
fomento à produção agrícola, atendendo aos interesses dos fortes lobbies ruralistas no
Congresso dos EUA. Destarte, mesmo com a arquitetura do sistema comercial ao estilo
tailor-made, os EUA, não satisfeitos, utilizaram-se da Seção 22 da referida Lei Agrícola
para impor quotas sobre a importação de algodão, trigo, amendoim, aveia, centeio,
cevada e todos os derivados de tais produtos, além dos produtos lácteos.


Observa-se que o uso de tais medidas protecionistas de ordem quantitativa pelos
EUA sobre diversos produtos agrícolas não estava de acordo com as exceções apresen-
tadas no âmbito das regras do GATT de 1947, significando, dessa forma, um claro
descumprimento destas. Entretanto, em 1955, os EUA obtiveram um waiver (suspen-
são de obrigações) no GATT relacionado às restrições quantitativas sobre produtos
agrícolas, podendo, a partir de então, adotar tais medidas sem a observância dos
requisitos necessários existentes no regramento gattiano. Ademais, muitos países da
Europa que vinham fazendo uso dos mecanismos legais de proteção fundamentados
no argumento de problemas no balanço de pagamentos, aproveitando-se da bre-
cha aberta no sistema pelos EUA, conseguiram também a suspensão de obrigações
relativas à agricultura. Ficou, assim, patente que o waiver dado aos EUA significou
a exclusão efetiva do tema agrícola das negociações multilaterais de comércio que




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buscavam a redução dos gravames às trocas entre as nações, denotando o poder
que os EUA detinham na liderança do processo e a importância de que seus interesses
fossem minimamente atendidos como forma de manutenção “tranquila” e “legítima”
do sistema multilateral de comércio.


De alguma forma, o waiver concedido aos EUA no GATT levou, e até mesmo
encorajou, a Europa Comunitária a lançar a Política Agrícola Comum (PAC) como um
elemento essencial do Tratado de Roma de 1957, observando-se, pois, a concordância
tácita da maior potência mundial da época aos mecanismos de proteção europeus,
tanto por motivos geopolíticos (Plano Marshall, Organização do Tratado do Atlântico
Norte) quanto por confluências de ideias protetoras sobre o setor agrícola.7


A marginalização do debate sobre o tema agrícola nas negociações multilaterais
pode ser vislumbrada ao se observar que este recebeu, até a Rodada Uruguai (1986-
1994), um tratamento meramente retórico, quando existente. Na Rodada Tóquio
(1973-1979), por exemplo, falou-se em negociações sobre agricultura, atendendo a
pressões dos países em desenvolvimento. Contudo, não se conseguiu chegar a um resul-
tado nas negociações sobre agricultura, como era de se esperar acerca de um tema tão
sensível aos interesses das potências econômicas mundiais numa época marcada pela
ascensão protecionista renovada em diversos setores da economia, inclusive o agrícola.


É fato, portanto, que a falta de regulamentação internacional sobre o comércio
agrícola abria espaço para o uso arbitral de subsídios e proteção fronteiriça aos produtos
agrícolas pelos países, principalmente os desenvolvidos, que tinham recursos suficientes
para tal. Ademais, Jank e Thorstensen (2005) lembram que: “Como essas proteções
acabavam por ocasionar um excesso de oferta, este somente era comercializado no
mercado internacional por meio da utilização de elevados subsídios à exportação, o
que acarretava instabilidade nos preços mundiais” (2005, p. 39). A pressão deflacio-
nista sobre preços agrícolas mundiais, resultante da exportação subsidiada dos países
desenvolvidos, afetava diretamente muitos países em desenvolvimento que estavam
fazendo esforços para se industrializarem e dependiam, num primeiro momento, das
exportações de produtos agrícolas como geradoras de divisas necessárias à importação
de bens de capital.


7. Para uma análise aprofundada sobre a constituição, evolução e reformas da Política Agrícola Comum (PAC) da Comuni-
dade Europeia, ver Carisio (2004).




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A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


Com o debate multilateral sobre produtos agrícolas dominado pelos interesses
das grandes potências, qualquer iniciativa que buscasse a inserção do tema
agrícola de forma efetiva no sistema multilateral de comércio estaria à mercê de
tais interesses. Somente na Rodada Uruguai (1986-1994) as potências econômicas
agroprotecionistas se mostraram minimamente concordantes com o lançamento de
negociações para a criação de regras sólidas para o tema agrícola no SMC. Por um
lado, os EUA, tendo em mente a possibilidade de aumentar suas exportações agrícolas
para a Europa e assim amenizar seu desequilíbrio nas contas externas, sustentaram
uma posição mais agressiva em relação à agricultura na Rodada Uruguai. Por outro
lado, os europeus, adotando posicionamento fundamentalmente defensivo em
relação ao tema agrícola, buscavam manter firmemente sua política de proteção
e subsídios agrícolas. Logo, a Comunidade Europeia barganhava com os norte-
americanos algum acesso a seu mercado em troca de um compromisso americano
em não questionar a PAC no GATT.


Foi justamente a partir do entendimento entre os negociadores dos EUA e da
Europa, com o Blair House Accord, de 1992, que saíram as principais diretrizes que
viriam a desbloquear as negociações da Rodada Uruguai e nortear a construção de um
acordo final sobre o comércio agrícola, culminando na assinatura do Acordo sobre
Agricultura (AsA), incorporado ao GATT 1994 ao fim da Rodada.8


Por meio do Acordo sobre Agricultura, o sistema multilateral de comércio final-
mente trouxe regras mais claras e efetivas em relação ao comércio agrícola. Entre as
novidades na regulação do setor, podem-se observar: i) consolidação e redução poste-
rior dos subsídios tanto à produção doméstica quanto à exportação de produtos agrí-
colas; ii) garantia de acesso tanto corrente quanto mínimo para produtos agrícolas que
tinham seu comércio dificultado pelos altos níveis de proteção; iii) a tarificação, que
consiste na transformação de barreiras não tarifárias em tarifas; e iv) a consolidação e
diminuição média das tarifas.


8. Cabe ressaltar que foi ainda estabelecido, na Rodada Uruguai, o Acordo sobre Aplicação de Medidas Sanitárias e Fitos-
sanitárias (MSF, em inglês, Agreement on the Application of Sanitary and Phytosanitary Measures – SPS Agreement), que
buscou disciplinar a regulamentação relativa à segurança dos alimentos e à sanidade vegetal e animal. Ademais, pode-se
afirmar que a criação do Acordo sobre SPS representou um ganho a partir dos esforços do Grupo de Cairns no sentido de
se obterem regras claras específicas acerca da imposição de medidas que possam acabar por se transformar em barreiras
ao comércio agrícola.




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Cale lembrar que os três pilares da negociação agrícola – subsídios à exportação, apoio
interno e acesso a mercado – receberam definições precisas com o AsA. No primeiro pilar,
os compromissos específicos acordados estavam relacionados à competição das exporta-
ções, incluindo-se subsídios diretos a produtos agrícolas voltados à exportação.9 Com o
AsA, compromissos de diminuição de tais subsídios foram estabelecidos da seguinte forma:
i) redução da quantidade exportada subsidiada de 21% para os países desenvolvidos e de
14% para os países em desenvolvimento, segundo os valores de referência do período-base
1986-1990; e ii) diminuição no nível total de gastos orçamentários ligados aos subsídios
à exportação do setor agrícola em 36%, para os países desenvolvidos, e em 14% para os
países em desenvolvimento. Ademais, ficou estabelecido um período de implementação de
tal esquema de redução dos subsídios à exportação relacionados à agricultura em seis e dez
anos para os países desenvolvidos e em desenvolvimento, respectivamente.10


O segundo pilar das negociações é aquele relacionado aos subsídios domésticos à
agricultura (também chamado de apoio interno), referindo-se ao auxílio e à proteção
que os governos ofertam aos produtores nacionais de produtos agrícolas, por meio
de mecanismos de subsídio ao preço de mercado ou de transferências diretas aos
produtores. Para classificar os diferentes tipos de subsídios agrícolas domésticos, foram
criadas três caixas que representam agrupamentos segundo critérios de distorção de
comércio, quais sejam: caixa amarela, caixa azul e caixa verde.


A caixa amarela compreende as políticas de apoio interno capazes de distorcer o
comércio agrícola internacional. Tais políticas são compostas por pagamentos diretos aos
produtores e sistemas de sustentação de preço de mercado, estando sujeitas a limitações
quanto ao seu uso durante determinado período de tempo, bem como a acordos de
diminuição. Os membros da OMC que não acordaram em reduzir os mecanismos da
caixa amarela não estão, em princípio, autorizados a adotá-los.


Por sua vez, a caixa azul abrange as formas de apoio interno capazes de distorcer
o comércio internacional, sendo, entretanto, livres de acordos multilaterais por se
relacionarem a programas de limitação da produção agrícola. Desse modo, o apoio
observado na caixa azul deve ser considerado como uma exceção aos subsídios domésticos


9. Vale frisar que esse tipo de subsídio é proibido pelo regramento da OMC por meio do Acordo sobre Subsídios e Medidas
Compensatórias. No entanto, o AsA abriu uma exceção à sua utilização para o setor agrícola.
10. É importante mencionar que os créditos à exportação e outras medidas equivalentes não foram objeto de qualquer
compromisso no AsA.




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relacionados com a produção, os quais são classificados na caixa amarela. Tal aspecto se
deve à necessidade dos subsídios internos na caixa azul de atender ao requisito de ser
uma medida governamental de limitação da produção interna, independentemente de
ser considerado um pagamento direto aos agricultores.11


Na caixa verde, são classificadas as medidas de apoio interno que não distorcem,
ou distorcem minimamente, o comércio agrícola. Não existe nenhum compromisso
de redução acordado sobre as medidas enquadradas na caixa verde, contudo, estas não
podem estar atreladas a nenhum tipo de garantia de preços aos produtores. Entre tais
medidas, podem-se citar: as assistências a desastres, pagamento direto ao produtor
desvinculado da produção, programas governamentais de pesquisa, controle de pestes
e doenças, extensão rural e infraestrutura.


Vale acrescentar que existe ainda uma cláusula chamada de minimis, que versa sobre
a autorização de continuação de políticas preferenciais, de subsídios e de dumping (tanto
em relação um produto específico quanto de forma não especificada), desde que não
excedam certo valor máximo – nível de minimis –, avaliado como limite imprescindível
para a manutenção da concorrência. O nível de minimis para os países desenvolvidos
enquadrados nesta cláusula foi estabelecido em até 5% do valor da produção, sendo de
até 10% para os países em desenvolvimento.


É importante lembrar que os subsídios domésticos avaliados como mais
distorcivos ao comércio agrícola (caixa amarela) e, portanto, acionáveis pela via legal
da OMC, são quantificados por meio da Medida Agregada de Apoio (em inglês,
Aggregate Measurement of Support – AMS). A AMS é composta por diversos
elementos, como o market price support, que é caracterizado pela diferença entre o
preço administrado garantido pelo governo e o preço externo de referência (preço
unitário praticado no período entre 1986 e 1988) multiplicada pela quantidade da
produção que pode receber o preço administrado de cada commodity, além de alguns
pagamentos diretos dependentes da diferença de preços. A AMS compreende tanto
os subsídios a produtos específicos quanto os relacionados a toda a produção de
determinado país-membro. A AMS é utilizada como parâmetro nas notificações,
análises e negociações comerciais do setor agrícola na OMC.


11. Os pagamentos diretos atrelados à limitação da produção, enquadrados na caixa azul, foram forjados, fundamentalmente,
para acomodar os subsídios previstos na Reforma MacSharry, da PAC, em 1992. Para mais informações sobre as reformas da
PAC, ver Carisio (2004).




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Ao fim da Rodada Uruguai, com o AsA, ficou acordado um cronograma de redução
dos subsídios domésticos que distorciam o comércio internacional agrícola, no qual era
prevista uma diminuição de 20% da AMS total nos países mais avançados no período
que iria de 1995 a 2000. Para os países em desenvolvimento, tal redução deveria ocorrer
em 13,3% no período compreendido entre 1995 e 2004.12 No entanto, cabe frisar que
diversos tipos de subsídios domésticos ficaram de fora dos compromissos de redução
acordados na Rodada Uruguai, entre os quais vale citar: i) aqueles relacionados à chamada
caixa S&D, em que um tratamento especial e diferenciado aos países em desenvolvimento
é oferecido relativamente às medidas de assistência governamental destinadas a programas
para o desenvolvimento de atividades rurais e agrícolas; ii) os enquadrados na cláusula de
minimis de suporte tanto a produto específico quanto não específico; iii) os subsídios da
caixa azul; e iv) os da caixa verde.


O terceiro pilar das negociações agrícolas é focado na questão do acesso a mercado,
que se refere ao grau de abertura de determinada economia aos produtos importados.
No que concerne ao acesso corrente, ficou acordado que os países manteriam os níveis
de importação dos produtos agrícolas de acordo com o volume de importação anual
médio observado no período-base 1986-1988. Em relação ao acesso mínimo, por sua
vez, acordou-se que os membros do sistema multilateral de comércio permitiriam o
acesso de produtos importados aos seus mercados num patamar correspondente a 3%
do consumo doméstico observado entre 1986 e 1988. Além disso, o acesso mínimo
deveria ser incrementado para 5% do consumo do período-base até 2000, para os paí-
ses desenvolvidos, e até 2004, para os em desenvolvimento. O cumprimento do acesso
mínimo é realizado por meio de quotas tarifárias, sendo definida uma tarifa intraquota
mais baixa e outra, extraquota, mais elevada.


A tarificação foi acordada como regra geral no AsA no pilar de acesso a mercado.
Assim, as barreiras não tarifárias deveriam ser eliminadas e, em seu lugar, ser esta-
belecidos equivalentes tarifários, os quais comporiam o nível-base tarifário do país-
membro junto com as tarifas normais. O nível-base resultante da tarifação deveria ser
cortado em 36%, para os países desenvolvidos, e em 24%, para aqueles em desen-
volvimento, em um período de seis e dez anos, respectivamente, a partir de 1995.


12. Todos os países-membros que não possuem compromissos acordados de redução da AMS devem manter seu
AMS dentro dos limites de minimis, isto é, até 5% do valor da produção para países desenvolvidos e 10% para países
em desenvolvimento.




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A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


Ademais, um patamar mínimo de acesso a mercado ficou estabelecido no caso de um
país-membro não vir a converter suas barreiras não tarifárias em tarifas equivalentes.
Tal acesso mínimo especial deverá ser 4% do consumo anual médio relativamente ao
período-base de 1986-1988, devendo ocorrer uma ampliação de 0,8% no consumo
relativo ao período-base até o final de 2000, para os desenvolvidos. No que tange aos
países em desenvolvimento, deverá haver um acesso mínimo especial em relação a
1% do consumo anual médio do período-base, aumentando de maneira uniforme
para 2%, em 1999, e 4% em 2004. O acesso mínimo especial segue os padrões
de efetivação do acesso mínimo geral, utilizando-se, assim, de quotas tarifárias para
sua implementação.


Um aspecto que não pode deixar de ser analisado em relação ao processo de tari-
ficação é que este acabou por gerar picos e escaladas tarifárias. Nesse contexto, veio a
ocorrer a consolidação, pelos membros do sistema multilateral de comércio, de tarifas
equivalentes muito elevadas, o que acabou por impossibilitar o comércio de uma gama
diversa de produtos agrícolas, dando margem aos interesses protecionistas tanto das
grandes potências quanto de tantos outros países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Não bastasse tal fato, estes interesses foram ainda acomodados por meio da Special
Safaguard Provision (SSP) para produtos agrícolas. Com a SSP, os países-membros
ganharam o direito de impor tarifas adicionais sobre produtos agrícolas importados no
intuito de salvaguardar os produtores nacionais da concorrência internacional.13


Assim sendo, a SSP trouxe a possibilidade de os países fazerem uso de proteção
tarifária ao setor agrícola sem demonstrar ameaça ou efetivo dano para a produção
nacional, isto é, sem comprovar a possibilidade real de que os produtores domésticos
poderiam sofrer efeitos adversos advindos de uma maior exposição internacional.
As condições para a implementação da SSP pelos países-membros são as que seguem:
i) obrigatoriedade de inscrição do símbolo SSG (special safaguard) relativo ao produto
na lista de compromisso do país que deseja tomar a medida; ii) necessidade de que
tenha sido realizada a tarificação em relação ao produto em questão; e iii) ativação do
gatilho, seja por um aumento relevante das importações do produto, superando certo
volume preestabelecido, seja pela importação abaixo do preço de referência.


13. Os produtos agrícolas passaram, assim, a ser suscetíveis de aplicação de salvaguardas tanto em função do Artigo 19
do GATT de 1994 e do Acordo sobre Salvaguardas, quanto pela SSP.




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É de grande relevância notar que o Artigo 13 do AsA contém a famosa Cláusula
de Paz, instrumento que denotou os interesses das grandes potências no acordo agrícola
da Rodada Uruguai a partir do Blair House Accord, e por meio da qual os membros do
sistema multilateral de comércio ficaram impedidos de acionar os subsídios agrícolas no
Órgão de Solução de Controvérsias da OMC e também de fazer uso de qualquer medida
de compensação durante um período de nove anos, comprendido entre 1995 e 2003.


Como se pode perceber, mesmo com a introdução do tema agrícola no SMC,
concedendo-lhe regras mais sólidas e eficazes, continuaram a existir diversas cláusulas
de escape, que vieram a atender, principalmente, aos interesses agrícolas protecionistas
das potências comerciais mundiais da época (EUA, UE e Japão). Tais mecanismos de
contorno da lei dentro de legalidade acabaram por tornar claro que as promessas de
uma abertura efetiva e de uma diminuição importante nos níveis de apoio ao setor
agrícola não viriam a ser cumpridas em sua plenitude, o que gerou um crescente des-
contentamento por parte de diversos países em desenvolvimento, que esperavam um
impulso liberalizante no comércio agrícola tão importante quanto nas demais áreas
negociadas na Rodada Uruguai do GATT.


3 O MANDATO NEGOCIADOR AGRÍCOLA DA RODADA DOHA:
DESAFIOS E EXPECTATIVAS


Seguindo o mandato previsto no AsA, em seu Artigo 20, as negociações que davam
continuidade ao processo de diminuição da proteção e do apoio agrícola foram retomadas
em 2000, um ano antes do final do período de implementação do que foi acordado
na rodada Uruguai. Tais negociações iniciaram diante de um espectro de opiniões
e interesses os mais variados possíveis entre os membros da OMC, observando-se
posicionamentos maximalistas e propostas assaz genéricas sobre o tema agrícola, o que
acabou por resultar num insucesso absoluto das negociações que ocorreram nos anos
de 2000 e 2001.


Quando do lançamento da Rodada Doha, em novembro de 2001, existiu o consenso
necessário acerca do tema agrícola enquanto cerne das negociações na rodada, devendo-se
levar em conta as distorções e as promessas não cumpridas sobre a temática na OMC.
Assim, o mandato negociador de Doha reafirmou o objetivo de longo prazo presente no
AsA, qual seja:




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A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


(...) estabelecer um sistema comercial justo e orientado para o mercado através de um programa de
reforma fundamental que inclua regras reforçadas e compromissos específicos de apoio e proteção a
fim de corrigir e prevenir restrições e distorções nos mercados agrícolas mundiais”14 (WTO, 2001,
p. 3, tradução nossa).


Além disso, a Declaração Ministerial de Doha reiterou o compromisso de negocia-
ção nos três pilares do tema agrícola, garantiu o tratamento especial e diferenciado aos
países em desenvolvimento e ressaltou ainda que preocupações não comerciais seriam
levadas em consideração nas negociações, como claramente exposto no seguinte excerto:


Nós nos comprometemos a realizar negociações amplas visando a: melhorias substanciais no
acesso ao mercado; reduções de, tendo em vista a eliminação gradual, todas as formas de sub-
sídios à exportação; e reduções substanciais no apoio interno causador de distorção comercial.
Concordamos que o tratamento especial e diferenciado para países em desenvolvimento deve ser
parte de todos os elementos das negociações, e deve ser incorporado nos modelos de concessões e
de compromissos e de forma apropriada nas regras e disciplinas a negociar, de forma a ser operacio-
nalmente eficaz e para permitir que os países em desenvolvimento tenham efetivamente em conta
suas necessidades de desenvolvimento, incluindo a segurança alimentar e o desenvolvimento rural.
Tomamos em nota as preocupações não comerciais, refletidas nas propostas de negociação apre-
sentadas por Membros, e confirmamos que tais preocupações serão levadas em consideração nas
negociações como previsto no Acordo sobre a Agricultura (WTO, 2001, p. 3, tradução nossa).15


Para que se possa entender de forma mais acurada a dinâmica dos interesses pre-
sentes nas negociações agrícolas da OMC, é importante voltar a atenção para alguns
importantes acontecimentos do mundo político-comercial ocorridos nos EUA e na
União Europeia nos últimos anos. Num primeiro momento, cabe observar que a
União Europeia apresentou novidades em sua Política Agrícola Comum a partir da
Reforma Fischler, de 2003. Na verdade, embora alguma evolução positiva possa ser
vislumbrada na última reforma da PAC, que se adequou à entrada dos novos membros,


14. “(…) to establish a fair and market-oriented trading system through a programme of fundamental reform encompas-
sing strengthened rules and specific commitments on support and protection in order to correct and prevent restrictions
and distortions in world agricultural markets.”
15. “(...) we commit ourselves to comprehensive negotiations aimed at: substantial improvements in market access; reductions
of, with a view to phasing out, all forms of export subsidies; and substantial reductions in trade-distorting domestic support.
We agree that special and differential treatment for developing countries shall be an integral part of all elements of the
negotiations and shall be embodied in the schedules of concessions and commitments and as appropriate in the rules and
disciplines to be negotiated, so as to be operationally effective and to enable developing countries to effectively take account
of their development needs, including food security and rural development. We take note of the non-trade concerns reflected
in the negotiating proposals submitted by Members and confirm that non-trade concerns will be taken into account in the
negotiations as provided for in the Agreement on Agriculture.”




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esta continuou a seguir o lema de “reformar a fachada para que o cerne não mude”,
persistindo, assim, importantes mecanismos de distorção do comércio agrícola como os
subsídios domésticos e as exportações em somas astronômicas.


Do outro lado do Atlântico, entrava em cena a nova Lei Agrícola dos EUA, a Farm
Bill, de 2002, que vigorou até 2008.16 Com essa lei, para acomodar os interesses rura-
listas norte-americanos, ocorreu um aumento substancial dos subsídios agrícolas rela-
tivamente aos anos precedentes, devendo ser disponibilizados mais de US$ 40 bilhões
por ano para apoio ao setor agrícola dos EUA, o que significa um incremento de quase
100% em relação ao montante disponibilizado pela Lei Agrícola de 1996.17 Ademais,
a autorização dada, em 2002, pelo Congresso dos EUA ao Executivo para negociar
acordos comerciais por meio da Trade Promotion Authority, com validade prorrogada
até 2007, trazia restrições importantes relativamente às negociações agrícolas, especial-
mente para aqueles produtos considerados sensíveis. Como coloca Ricupero:


Efetivamente, em cerca de 350 produtos sensíveis, o Executivo terá de submeter-se a complicadas
consultas, às vezes com não menos que quatro comissões parlamentares (as duas de Agricultura, a
Ways and Means, da Câmara, e a de Finanças, do Senado) se quiser negociar a redução de barrei-
ras. As consultas são minuciosas e preestabelecidas nos mínimos detalhes. A negociação não está
proibida em tese, mas, na prática, não será fácil superar essa verdadeira corrida de obstáculos. Boa
parte dos produtos incluídos na lista são aqueles para os quais os Estados Unidos fizeram a menor
redução possível no fim da Rodada Uruguai: 15% (RICUPERO, 2002, p. 16-17).


Diante de tais interesses e posicionamentos claramente protecionistas das maio-
res economias do mundo, as negociações agrícolas da Rodada Doha prosseguiram em
Genebra sem grande sucesso. Os impasses persistiram nos três pilares do tema agrícola
com alguns países, como o Brasil, tendo posicionamento mais agressivo em relação à
liberalização de forma mais geral e alguns outros defendendo pontos de vista protecio-
nistas em aspectos específicos, quando não across the board.


Após o retumbante malogro em Cancun, em fins de 2003, as negociações estag-
naram, tendo sido perdido o deadline planejado no início das negociações. Contudo,


16. A Farm Bill de 2008 destinou US$ 307 bilhões para o setor em cinco anos, ampliando o apoio aos programas para
commodities, ajuda alimentar e novos financiamentos em matéria de energia (Verdier e Lembo, 2008).
17. É interessante observar que tal movimento de aumento nos subsídios agrícolas nos EUA veio em paralelo ao lançamento
da Rodada Doha, denotando certo posicionamento estratégico por parte dos EUA, já observado em ocasiões anteriores, antes
do início de determinadas negociações nas quais são esperadas pressões por reduções nos níveis de proteção de certos setores.




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A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


é imprescindível notar que, em Cancun, algo novo surgiu no horizonte negociador da
OMC. O G20, criado no período imediatamente anterior à reunião, veio a ocupar um
espaço relevante nas negociações sobre a temática agrícola na rodada e, por conseguinte,
no próprio prosseguimento desta de forma geral, substituindo o antigo “consenso do
Quad” (EUA, UE, Canadá e Japão) por mecanismos de harmonizações sucessivas de
posições de países-chave tanto desenvolvidos quanto em desenvolvimento. O grupo
é marcado por uma confluência de interesses acerca das negociações agrícolas, não
obstante existam determinados países do G20, como a China e a Índia, que apre-
sentam posições claramente protecionistas relacionadas ao pilar de acesso a mercados.
Este aspecto dá ao grupo um caráter dual, o que implica maiores desafios para o líder,
o Brasil, no sentido de tentar manter o G20 unido como força importante do processo
negociador e, ao mesmo tempo, não descuidar dos temas que enfrentam posicionamen-
tos reticentes tanto dos países desenvolvidos quanto dos parceiros em desenvolvimento.


Sobre a importância do G20 para a organização de ações e posicionamentos de
países em desenvolvimento nas negociações agrícolas na OMC, Lima e Hirst afirmam:


a formação do G20, no âmbito da Rodada Doha, foi o primeiro movimento de retomada dos
temas da agenda do desenvolvimento no período pós-Guerra Fria, pós-crises de endividamento e
fiscal do Terceiro Mundo, bem como de perda do dinamismo político do G-77. Sua atuação foi
crucial para a renovação da parceria Índia-Brasil na coordenação da ação coletiva dos interesses
agrícolas dos países em desenvolvimento (LIMA e HIRST, 2009, p. 14).


Desde sua criação, o G20, particularmente por meio da atuação de Brasil e Índia,
passou a influenciar a agenda negociadora, sendo convidado a articular negociações
importantes que buscaram colocar a Rodada Doha nos trilhos. Isso aconteceu quando
da negociação de dois principais pacotes que tentaram destravar posições (os pacotes de
julho de 2004 e especialmente o de julho de 2008).


Com o pacote de julho de 2004, as negociações foram retomadas, ainda que de
forma muito retardada e pouco dinâmica, resultando em compromissos tímidos que
viriam a ser ratificados na Conferência Ministerial de Hong Kong, em dezembro de
2005. Vale frisar que o propalado sucesso em Hong Kong deve ser observado de forma
relativa, tendo por base que talvez o único grande feito observável derivado da reunião
foi o acordo sobre o fim dos subsídios agrícolas à exportação e medidas equivalentes,
algo já acordado em 2004, como será mais bem analisado a seguir.




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Não obstante tenha ocorrido alguma aproximação entre as propostas dos principais
grupos interessados no tema agrícola desde o início das negociações, este continuou a ser
tanto o foco principal do mandato negociador da Rodada Doha quanto seu elemento
mais controverso. Os EUA e a União Europeia continuaram bastante reticentes relativa-
mente aos seus pontos mais sensíveis da negociação agrícola. Por um lado, a UE pressio-
nou os norte-americanos por uma proposta mais agressiva em relação ao apoio interno.
Por outro, os EUA estabeleceram que, sem uma proposta europeia de liberalização efetiva
no acesso ao seu mercado agrícola, o progresso das negociações não poderia ser materia-
lizado de forma mais rápida.


O Brasil, como exportador agrícola e por seu potencial competitivo internacional,
é um dos países com posicionamentos mais agressivos na Rodada Doha em defesa da
liberalização do comércio agrícola com redução substancial dos subsídios que o distorcem.
O país vê nas negociações da Rodada Doha uma grande oportunidade, talvez a primeira
em mais de 60 anos de sistema multilateral de comércio, para o estabelecimento de
regras mais justas para o comércio agrícola mundial, dando à agricultura um padrão
regulatório semelhante ao observado para os produtos industriais. Ademais, o tratamento
de temas sistêmicos, como os subsídios internos e às exportações, tende a tomar a frente
nos interesses do país na OMC, dado que são temas de trato muito difícil em relações
bilaterais. Neste sentido, o Brasil teve papel de destaque na tentativa de encerramento
da rodada a partir da formatação do pacote de julho de 2008, provavelmente a mais
importante janela de oportunidade para conclusão das negociações na OMC.


No intuito de melhor vislumbrar o atual estágio das negociações multilaterais
sobre agricultura e seu provável devenir, apresentam-se algumas das propostas em nego-
ciação na rodada sobre os três pilares agrícolas de forma particularizada, dando ênfase
aos principais elementos que compõem o jogo de interesses em cada um, a partir do
ponto de vista brasileiro e tomando o pacote de julho de 2008 como referência.


No pilar relacionado aos subsídios às exportações e medidas equivalentes, foram
realizados os maiores avanços nas negociações agrícolas até o momento. Nesse pilar,
incluem-se tanto os subsídios diretos à exportação quanto medidas equivalentes como
créditos à exportação, abuso dos programas de ajuda alimentar e práticas distorcivas
utilizadas por empresas estatais de comércio.




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A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


Após as negociações ocorridas durante os anos 2004 e 2005, ficou acordado, em
Hong Kong, o fim dos subsídios às exportações até 2013. Tal data coincide com o prazo
final de vencimento do orçamento da PAC e dos regimes do açúcar e lácteos da UE, como
determinado pela Reforma Fischler, de 2003. Assim, fica patente que o fim acordado dos
subsídios à exportação na OMC veio a acomodar os interesses da UE em relação a tal
temática. Por isso, não obstante a importância do tema, não se pode dar caráter de sucesso
absoluto ao que ficou acordado em Hong Kong para os países em desenvolvimento,
como o Brasil. Os interesses defensivos acabaram por prevalecer.18 Contudo, algo de mais
positivo também surgiu em Hong Kong, como relata Jank e Tachinardi:


O maior ganho nas decisões sobre a eliminação dos subsídios à exportação é que haverá de forma
concomitante a eliminação de medidas equivalentes, como os créditos subsidiados à exportação,
as medidas de abuso da ajuda alimentar e o disciplinamento da ação das empresas estatais de
comércio (2006, p. 7).


A importância dos interesses da UE em relação ao tema dos subsídios à expor-
tação pode ser confirmada a partir da observação do gráfico 1. Levando-se em consi-
deração o total dos subsídios à exportação notificados à OMC entre os anos de 1995
e 2001, aqueles relacionados à UE-15 conformam 90% do total, seguidos pelos da
Suíça, com 5,3%, e pelos dos EUA e da Noruega, tendo cada um 1,4% do total dos
subsídios notificados.


GRÁFICO 1
Porcentagem do total de subsídios às exportações agrícolas notificados à OMC (1995-2001)


Fonte: WTO.


18. Vale lembrar que o G20 defendia o ano de 2010 como ano-limite para o fim dos subsídios às exportações agrícolas.




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As perspectivas pouco animadoras para os interesses dos países do G20, além de se
fundarem no atendimento das necessidades de prazos dos principais países que fazem
uso dos subsídios à exportação, também encontram eco nas estatísticas apresentadas no
quadro 1.


QUADRO 1
Subsídios às exportações agrícolas: valores notificados e utilizados em 2000
(Em US$ milhões)


Região Valor notificado (VN) Valor utilizado (VU) VU/VN (%)


UE-15 2.520 935 37,1


Suíça 190 137 72,1


Novos da UE 80 26 32,2


Noruega 40 32 79,7


EUA 20 0,52 2,6


Fonte: WTO.


Como se pode observar, os valores dos subsídios consolidados na OMC pelos
diversos países-membros estão substancialmente acima daqueles que são por eles efeti-
vamente usados. A UE-15, por exemplo, havia consolidado, na OMC, em 2000, cerca
de US$ 2,5 bilhões em subsídios às exportações do setor agrícola. Contudo, só utilizou
cerca de 37%, ou seja, US$ 935 milhões. Os EUA, por seu turno, que haviam notifi-
cado à OMC cerca de US$ 20 milhões em subsídios à exportação em 2000, fizeram uso
de apenas 2,6% do total, perfazendo um valor absoluto de US$ 520 mil.


O que tais estatísticas indicam? Elas relatam que os países que mais subsidiam suas
exportações agrícolas já vinham reduzindo o uso efetivo de tais medidas de apoio, o
que não deixa de ser algo positivo. Como os cortes nos subsídios negociados na OMC
são realizados nos valores notificados à organização, isso significa que o acordo para
a redução e extinção dos subsídios à exportação na Rodada Doha virá muito mais a
cortar a “água” dos subsídios, num curto prazo, do que reduzir de forma efetiva as
distorções atuais. Logicamente, caso se chegue a 2013 com a extinção total de tais
subsídios e medidas equivalentes, ter-se-á um resultado relativamente positivo, dando,
todavia, uma margem grande de flexibilidade e adaptação ao principal usuário de tais
mecanismos, que é a União Europeia. Ademais, o montante absoluto dos subsídios
agrícolas em todo o mundo é relativamente pequeno – cerca de US$ 3 bilhões (US$ 5
bilhões se forem levadas em conta as medidas equivalentes) – se comparado aos US$
108 bilhões notificados à OMC como apoio interno distorcivo (AMS + caixa azul + de
minimis) em 2001.




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A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


Ainda sobre o pilar dos subsídios à exportação, as negociações foram focadas em
alguns aspectos mais específicos relacionados às medidas equivalentes, como os créditos
à exportação. Para o Brasil, o tema de maior importância talvez seja a diminuição ao
máximo dos créditos às exportações para 180 dias, porquanto este é um mecanismo
vastamente usado pelos EUA em sua produção agrícola exportada.


No segundo pilar das negociações, o do apoio doméstico agrícola, as posições
não se apresentam tão bem desenvolvidas e estruturadas em direção a um acordo sem
maiores empecilhos. Desde Hong Kong (2005), o avanço foi tímido em relação a este
pilar, com aprovação de um texto ambíguo, no qual se discutiram cortes “efetivos” dos
subsídios domésticos, sem esclarecer, contudo, se isso aconteceria em caixas específicas
ou também no nível global de cortes. Pode-se destacar dois pontos especiais nos quais
algo novo e positivo foi criado em Hong Kong, quais sejam: a criação de bandas para
cortes diferenciados no apoio interno e a indicação da composição de tais bandas.


Em relação à estrutura da fórmula de diminuição do apoio interno, foram definidas
três bandas para cortes em AMS (os subsídios da caixa amarela) e apoio total distorcivo.
Além disso, indicou-se que tais bandas seriam compostas da seguinte maneira: na banda
mais alta, na qual os compromissos de cortes serão mais expressivos, estaria a UE; numa
segunda banda, com cortes importantes, mas menores que os da primeira, ficariam os
EUA e o Japão; e numa terceira banda, os demais países-membros tanto desenvolvidos
quanto em desenvolvimento, devendo os primeiros, com nível de AMS mais elevados,
realizar um esforço maior no corte do que os demais integrantes da terceira banda.


Como se verifica no gráfico 2, a UE-15, principal usuária das medidas de apoio
interno agrícola, reduziu seus gastos com tais subsídios entre os anos de 1995 e 2000.
Ao se observar o patamar global dos subsídios domésticos com poder de distorção do
comércio agrícola (AMS + caixa azul + de minimis), identifica-se que a UE-15 reduziu
em 36%, de US$ 95 bilhões para US$ 60,8 bilhões, o valor absoluto dos subsídios mais
distorcivos ao comércio entre os anos de 1995 e 2000. Por seu turno, o Japão diminuiu
em 80% o uso de tais subsídios no mesmo período, passando de US$ 36,8 bilhões para
o patamar de US$ 7,3 bilhões. Os EUA aumentaram em 64%, de US$ 14,7 bilhões
para US$ 24,1 bilhões, a utilização dos subsídios mais distorcivos no período em ques-
tão, denotando a crescente pressão por medidas de apoio doméstico por parte dos
ruralistas norte-americanos, o que veio a ser ratificado e ampliado com as Farm Bills
de 2002 e de 2008, quando o montante disponível para subsidiar a produção agrícola
doméstica aumentou de forma substancial.




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GRÁFICO 2
Apoio interno agrícola notificado à OMC por Japão, EUA e UE-15 (1995 e 2000)


Fonte: WTO.


Algumas das propostas de redução do apoio interno discutidas na Rodada Doha
foram as seguintes: o Brasil, como líder do G20 e esperando um resultado ambicioso
nesse tema, propôs inicialmente aos EUA e à UE um corte de 75% e 85%, respectiva-
mente, em seus subsídios totais distorcivos – soma das caixas amarela e azul. Por sua vez,
a UE, após oferta inicial de 70% de corte no apoio doméstico, aceitou uma redução de
75% e pressionou os EUA para que eles concordassem com uma redução de 65% em seus
subsídios totais distorcivos. Entretanto, os EUA, com posicionamento mais defensivo
nessa área, continuaram a afirmar que só poderiam aceitar um corte máximo de 53%.


Para alguns negociadores, seria mais provável se chegar a um acordo na Rodada Doha
no pilar de apoio doméstico, um dos mais difíceis da negociação, se os EUA melhorassem
sua proposta, elevando os cortes até 65%, e a UE mantivesse os 75% de redução em sub-
sídios domésticos.19 Tal fato, mesmo representando um resultado aquém das demandas
iniciais do G20, representaria um avanço não desprezível para os interesses dos países em
desenvolvimento com potencial de ganhos expressivos com a liberalização do setor agrí-
cola. Contudo, vale frisar que os EUA têm insistido na abordagem do US$ 1 por US$ 1,
isto é, só estariam prontos para abrir mão de medidas de apoio interno se ocorresse plena
compensação em acesso a mercados na Europa e nos países em desenvolvimento. Assim,
dada a complexidade dos interesses em jogo, não se pode ter um posicionamento mais
assertivo de como as negociações podem desenrolar nos próximos meses.


19. Um recente estudo feito por Kutas (2006) estima o nível de subsídios distorcivos na UE-25 até 2013 e analisa o espaço
de manobra que o bloco possui para oferecer cortes mais profundos em seus compromissos de apoio interno agrícola no
contexto da Rodada Doha. A pesquisa conclui que a UE poderia reduzir em 77% os seus subsídios domésticos distorcivos,
7 pontos percentuais (p.p.) acima de sua proposta inicial e 2 p.p. acima dos 75% que vêm sendo negociados.




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A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


Vale ressaltar que, além do foco nos cortes globais de apoio interno, muitos países
em desenvolvimento, entre eles o Brasil, têm especial interesse na criação de disciplinas
claras e efetivas acerca da classificação nas caixas de subsídios, no intuito de evitar
o chamado box shifting em detrimento de seus interesses. A principal pendência, no
momento, são as disciplinas mais rígidas para a caixa azul, o que tem a oposição frontal
dos EUA, contrários a disciplinas que possam obrigá-los a restringir os dispêndios com
os pagamentos agrícolas contracíclicos.20 Em relação à caixa verde, correspondente aos
subsídios que não distorcem ou distorcem minimamente o comércio, a ideia defendida
pelo G20 é limitar o uso de pagamentos relacionados à proteção da renda em produ-
tos específicos, por meio de pagamentos diretos desconectados de níveis de produção,
buscando evitar que os programas distorcivos ao comércio agrícola internacional sejam
alocados nessa caixa.


Ao mesmo tempo, os países do G20 querem mecanismos de supervisão e monito-
ramento mais eficazes, transparentes e impositivos sobre os subsídios domésticos e sobre
a implementação do que for acordado na rodada. Um dos principais problemas no
sistema atual é a falta de transparência na notificação dos gastos com subsídios – alguns
países permanecem por muitos anos sem notificá-los à OMC. Outro problema que deve
ser resolvido é a ausência de instrumentos que obriguem os países-membros a debater
e esclarecer suas políticas agrícolas no âmbito do Comitê de Agricultura da OMC.


Finalmente, no terceiro pilar das negociações agrícolas, relacionado ao acesso a
mercado, os seguintes elementos estão sendo negociados: a fórmula de redução tarifá-
ria, picos e escalada tarifárias, tratamento de produtos sensíveis, salvaguardas especiais e
produtos especiais. Até o presente momento, dada a dinâmica do processo negociador,
a percepção que se tem é de que dificilmente haverá uma liberalização ambiciosa do
comércio agrícola na Rodada Doha.


Antes de se ater às negociações relacionadas à redução das tarifas que dificultam
o comércio agrícola, vale aqui avaliar o perfil tarifário agrícola dos principais países
participantes das negociações no intuito de melhor entender o desenrolar do processo
negociador agrícola da Rodada Doha. Assim, apresenta-se, no quadro 2, uma síntese
dos perfis tarifários de países selecionados.


20. Os EUA apresentaram, ainda em 2004, uma proposta relativamente avançada de redução dos pagamentos na caixa
azul em que os 5% do valor da produção passariam para 2,5%.




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QUADRO 2
Tarifas sobre o comércio agrícola em países selecionados (2004)
(Em %)


UE-15 Japão EUA Índia Brasil


Parte das linhas tarifárias consolidadas 100,0 99,5 100,0 97,5 100,0


Parte das linhas tarifárias duty free 26,5 31,0 27,9 1,60 2,0


Média simples da tarifa consolidada pós-Rodada Uruguai 20,0 29,7 9,0 101,0 35,2


Desvio padrão das tarifas consolidadas 22,1 12,6 5,5 51,0 10,1


Parte das linhas tarifárias com tarifas acima de 15% 33,9 17,5 2,6 99,4 96,4


Parte das linhas tarifárias com tarifas acima de 100% 0,9 0,3 0,0 44,7 0,0


Tarifa média aplicada 29,3 26,6 10,7 36,9 10,2


Fonte: WTO.


Como se pode vislumbrar, a UE-15 tem a maior tarifa média aplicada (29,3%) e
também o maior desvio padrão em suas linhas tarifárias (22,1%) entre os países desen-
volvidos, o que significa uma maior dispersão tarifária, denotando a probabilidade mais
elevada de serem observados picos e escaladas tarifárias contra importações agrícolas.
No que concerne aos EUA, embora possua o menor desvio padrão da série (5,5%) e
tarifa média aplicada de 10,7%, este país faz uso de outros mecanismos de proteção que
não estão evidenciados no quadro 2, porque trabalha com tarifas comuns, deixando de
lado o processo de tarificação. Ademais, vale destacar o perfil claramente protecionista
da Índia em relação às tarifas impostas sobre o comércio agrícola. Apresentando um
desvio padrão de 51%, a Índia possui ainda 44,7% de suas linhas tarifárias com tarifas
acima de 100% e uma tarifa média aplicada de 36,9%, 39% maior que a média tarifá-
ria aplicada no Japão (26,6%) e 262% superior à do Brasil (10,2%).


Na Conferência de Hong Kong, o pilar de acesso a mercado sofreu certo retrocesso,
tendo em vista que permaneceu a completa indefinição em relação à seleção e ao trata-
mento de acesso para produtos sensíveis, tema muito complexo nesse pilar. Ademais,
cabe frisar que foram oficializados os instrumentos adicionais de proteção para os países
em desenvolvimento como os produtos especiais e as salvaguardas especiais, atendendo às
demandas protecionistas do G120 (grupo de países em desenvolvimento com posiciona-
mento mais defensivo na rodada formado pela junção do G33 com o G90 e alguns países
do G20, entre eles Índia e China). Os produtos especiais escapariam dos cortes estabe-
lecidos na rodada e seriam denominados pelos próprios países. As salvaguardas teriam
aplicação automática seguindo gatilhos de quantidade e preço, sendo inclusive permitido
o aumento de tarifas aplicadas além do patamar consolidado na OMC.




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29


A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


Em relação às negociações acerca dos cortes tarifários médios, as propostas na
mesa de negociação no quadro do pacote de julho de 2008, já com harmonização de
interesses entre os principais negociadores, foram as seguintes: os EUA, a UE e o G20
convergiram no apoio a uma redução média de 54% nas tarifas aplicadas, excetuando-se
4% das linhas para produtos sensíveis.21 É importante lembrar que a complexidade das
negociações de acesso a mercado em relação ao nível de desgravação tarifária a ser acor-
dado envolve a escolha da fórmula pela qual esta redução tarifária será efetivada, o que
determinaria o nível global médio de redução e a existência de tratamentos específicos.


No que tange aos produtos sensíveis, as negociações se complicam mais ainda,
como pode ser observado a partir da abissal distância entre as proposições dos diversos
grupos envolvidos. A proposta do G20, já ponderada em negociação com os EUA e
a UE, de que os produtos sensíveis não representem mais de 4% do total de linhas
tarifárias, vai de encontro àquela do G33 (grupo de países com interesses defensivos
em agricultura, que inclui a China e a Índia), que defende que os produtos sensíveis
componham 20% das linhas tarifárias totais.22


Além das discordâncias importantes sobre a porcentagem que deverá ser repre-
sentada pelos produtos sensíveis no total das linhas tarifárias, resta ainda o debate
sobre a temporalidade ou não do regime especial para os produtos sensíveis. O G33
e a UE defendem a ideia de que deve ser permitida a proteção de longo prazo para
tais produtos em se mantendo os níveis atuais de produção. Por sua vez, o G20,
entre outros, acredita na obviedade do caráter temporário do regime, visto como um
mecanismo transitório de ajuste que tem como fim último a sua própria eliminação.
Assim, é fato que o pilar de acesso a mercado continua a ser o de maior complexidade
negociadora e aquele com menor probabilidade de se conseguir um acordo que traga
uma liberalização ampla na Rodada Doha.23


21. Segundo negociadores brasileiros, o Brasil negociando sozinho teria como proposta uma redução média nas tarifas
aplicadas de 80%.
22. De acordo com estudo do Banco Mundial, basta que 2% das linhas tarifárias sejam consideradas como de produtos
sensíveis para que os possíveis ganhos advindos da liberalização do comércio agrícolas sejam eliminados.
23. Como informação adicional, mas não menos importante, citem-se as negociações atuais acerca do comércio de algo-
dão, que ganhou status diferenciado na OMC como iniciativa especial a partir do pacote de julho de 2004. Após período de
intensas negociações, acordou-se, em Hong Kong, o fim dos subsídios domésticos e às exportações direcionados ao setor
algodoeiro em 2006, caso se tivesse concluído a rodada até então. Além disso, os países desenvolvidos também aceitaram
dar acesso livre de gravames (tarifas e quotas) às exportações de algodão advindas dos países mais pobres. Tal decisão, em-
bora de pequena abrangência, pode vir a ser um mecanismo de melhoria de renda para as populações pobres em diversos
países africanos. Para o Brasil, a medida de maior importância estaria relacionada a cortes nos subsídios totais, o que pode
dar algum impulso às exportações brasileiras para mercados antes protegidos e subvencionados.




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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS


As negociações nos três pilares agrícolas não avançam em conjunto. No pilar dos sub-
sídios às exportações e medidas equivalentes, houve um progresso substancial, embora
dentro de determinadas condições. No que concerne ao apoio interno, segundo pilar
das negociações, muito ainda precisa ser feito na tentativa de aproximação das pro-
postas. Contudo, caso se observassem as difíceis sinalizações de ganhos em acesso a
mercados por parte da Europa e dos países em desenvolvimento, seria possível que os
EUA cedessem em relação aos cortes no apoio interno, o que levaria a um acordo final
nesse pilar. No terceiro pilar, o do acesso a mercados, observa-se, com certo temor, que
as negociações avançam muito timidamente. Por envolver interesses protecionistas de
potências mundiais, como a UE, e de países em desenvolvimento, como a China e a
Índia, a temática toma contornos complexos e indefinidos.


As expectativas são de que não se consiga uma liberalização ambiciosa na Rodada
Doha, o que poderia afetar diretamente, como colocado, as negociações no segundo
pilar. Vale frisar que existe também claro paralelismo entre as negociações agrícolas e
aquelas ligadas ao acesso ao mercado de produtos não agrícolas (em inglês, non-agricul-
tural market access – Nama), o que traz maior complexidade ao tratamento dos temas,
tendo em vista que os países tendem a tentar contrabalançar “perdas” de um lado com
“ganhos” em outro, implicando num alongamento maior das discussões.


A tentativa mais importante de se chegar a um acordo sobre o tema agrícola na
Rodada Doha aconteceu certamente em julho de 2008, em Genebra, e foi mais uma
vez frustrada devido a divergências sobre a Special Safaguard Provision (SSP) para
produtos agrícolas, envolvendo, de um lado, os EUA, e, de outro, a China e a Índia.
Enquanto a proposta norte-americana sinalizava para um gatilho acionado com 40%
de surto de importações e uma tarifa externa de 15%, o G33, sob liderança indiana
e chinesa, colocou na mesa uma proposta de gatilho com 10% de surto importador e
tarifa externa de 30% a 45%.


Em julho de 2009, na Cúpula do G8, na Itália, ficou explícita a resistência do
governo de Barack Obama à Rodada Doha, não tendo o seu governo nem mesmo indi-
cado um embaixador para o posto em Genebra até então. Em 2011, o Brasil inovou no
processo negociador agrícola ao propor acordos com foco em produtos específicos para a




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Discussão
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31


A Regulação do Comércio Internacional Agrícola: histórico e perspectivas


agricultura. Essa estratégia vincula-se à tentativa brasileira de dar resposta às pressões de
países desenvolvidos e alguns em desenvolvimento, como a China, por maior abertura
comercial em Nama, tema no qual o país mantém interesse defensivos (ICTSD, 2011).


Há bastante ceticismo entre os países-membros da OMC quanto à conclusão da
rodada à medida que as dificuldades políticas, domésticas e internacionais perduram.
Contudo, mesmo com a existência de um grande ceticismo acerca da possibilidade
de sucesso na empreitada de se tentar finalizá-la, cabe ressaltar que, no jogo político-
diplomático, as cartas a serem apresentadas podem eventualmente surpreender.
Resta, assim, observar com atenção como se dará o desenvolvimento do processo
negociador da diplomacia comercial multilateral e como seus resultados afetarão a
regulação do comércio internacional agrícola no futuro.


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